sexta-feira, 6 de março de 2015
Segredos
Pensei, existem segredos nas coisas.
Segredos que não residem na explicação subatómica da matéria, em simples reacções químicas ou biológicas, em complicada física quântica, arquitectura estelar ou na fé mais pura e sempre ignorante.
As árvores estavam ali, imóveis e majestosas, talvez há centenas de anos e, mesmo assim, desconheciam tão rudemente esses mistérios como eu.
Ao passar, agitaram as suas raízes, no que me pareceu uma tentativa fracassada de se moverem ou contestarem, e clamaram - Olha bem para nós que aqui estamos eternizando a morte e, no entanto, tu envelheces, com a vantagem de poder manter imberbe o riso na memória! -
- Reparem - disse-lhes, - que vantagem é poder recordar o tempo que passa, o espaço entre cada segundo, esse momento mágico que compõe o tudo e o nada? - (Recordar que hoje, novamente, dei pela tua falta nas nuvens não é vantagem e há dias que são compostos unicamente por sentir a tua falta).
Foi então que uma das árvores mais pequenas lançou os ramos na minha direcção, alcançando-me, e me abraçou suavemente.
Pareceu-me ouvir o teu nome sussurrado pelo vento a ziguezaguear pelas folhas.
Olhei para o céu por entre a folhagem.
Continuavas a faltar nas nuvens.
Mas descobri que não podias estar mais perto do que estavas naquele momento estando dentro de mim.
Simetrias
Passaste em frente da minha janela
Talvez tenhas sido tu
ondulando com uma estranha simetria
nas pedras assimétricas da calçada
Podes não ter sido tu
mas isto foi há 30 anos atrás
Ondularias de maneira diferente
e até as pedras da calçada seriam
assimetricamente diferentes
menos gastas e agastadas
de tantos pés que ficaram perdidos
em ecos de sexo, lágrimas, raiva
tempos mudos de lembranças
O jardim era diferente
cortado por curvas estradas
negras de alcatrão
A janela, essa, terá outros vidros
a necessitarem de ser limpos
das rugas que nasceram
nos olhos que dolorosamente
suportaram não te ter visto
obrigados a parir
ganindo
a tua imagem tatuada
com ferro em brasa
na parte de trás do meu cérebro
Podes ter sido tu
continuas igual ao que não conheci
30 anos depois
quinta-feira, 5 de março de 2015
Confissão
Vou contar-te um segredo que não é bem um segredo é mais uma confissão.
Sinto-me impotente para te descrever e isso aflige-me.
E esse segredo é também um desejo, o de reunir o mundo nas minhas palavras, intérprete, conseguisse traduzir as imagens, as cores, os sons, os perfumes, o movimento, com o toque dos meus dedos, e no monitor que complacente fica estático à minha frente as mesmas voltassem na sua dinâmica a ser imagens, cores, sons, perfumes, movimento, coisas que apreendesses com simplicidade e te reencontrasses e revisses nelas e dissesses: sou eu de quem falas, sou eu que te atormenta sem necessidade, sem querer. Estou aqui, amo-te! Esperei-te tantos anos, vem me buscar!
Num instante eu iria e dentro de mim esta inquietação, as imagens, as cores, os sons, os perfumes, o movimento, finalmente estancariam, descansando. O véu desta paz que não conheço seria o manto, o lençol, o leito apaziguador no qual sereno te diria tudo o que tenho para dizer e te amaria.
Sinto-me impotente para te descrever e isso aflige-me.
E esse segredo é também um desejo, o de reunir o mundo nas minhas palavras, intérprete, conseguisse traduzir as imagens, as cores, os sons, os perfumes, o movimento, com o toque dos meus dedos, e no monitor que complacente fica estático à minha frente as mesmas voltassem na sua dinâmica a ser imagens, cores, sons, perfumes, movimento, coisas que apreendesses com simplicidade e te reencontrasses e revisses nelas e dissesses: sou eu de quem falas, sou eu que te atormenta sem necessidade, sem querer. Estou aqui, amo-te! Esperei-te tantos anos, vem me buscar!
Num instante eu iria e dentro de mim esta inquietação, as imagens, as cores, os sons, os perfumes, o movimento, finalmente estancariam, descansando. O véu desta paz que não conheço seria o manto, o lençol, o leito apaziguador no qual sereno te diria tudo o que tenho para dizer e te amaria.
Tantalizado
espera não te mexas
fico ébrio com as moléculas de ar que deslocas
tropeço a cada instante fico exangue
tu mereces muito mais e eu preciso mais de ti
espera não fales
fico viciado nas palavras que proferes
sem saber para onde vou ou o que sou
tu mereces ainda mais e eu preciso tanto de ti
talvez se fosse um deus mesmo menor
um louco ou um poeta
(que inveja que tortura)
me suportasse Tântalo para sempre
talvez num momento indiscreto de alquimia insolente
alcançasse o bem supremo
aprendesse a cantar-te eternamente
quarta-feira, 4 de março de 2015
Vício
Redondos são os pensamentos, meros espaços articulados na distância angulosa da tua ausência.
Uma crónica que desfio interminavelmente entre mãos que suplicam outros silêncios, cúmplices.
Porque há silêncios diferentes, aqueles que se habituam ao desespero e revolta do beijo por dar ou ao simples acariciar das memórias com o teu nome.
Redondos são os pensamentos, como este vício circular de pensar em ti.
Se fores nascente serei escarpa
Se fores nascente serei escarpa
o leito as margens que te abraçam
caindo da altura
Serei sombra de árvore
sequiosa na encosta
metamorfose eclodindo indolente
no suave e lento meandro
da líquida planície do teu ventre
Serei foz mar amplitude
o sal que no doce se mistura
A memória sem vergonha
sem nada que a destrua
que por ti passeia intacta
mágica
vibrante
e nua
terça-feira, 3 de março de 2015
Não escrevo, és tu que escreves em mim..
As minhas mãos pairam inconscientes, nuvem sobre o teclado.
Esperam por ti.
Não sei se quereriam esperar por ti assim ou de outra maneira, mais suave,
tacteando a tua pele. Mas é uma questão de oportunidade.
tacteando a tua pele. Mas é uma questão de oportunidade.
Certo é que não só elas, mas todo eu, nos tornámos um veículo teu,
incapaz de dominar qualquer acto volitivo, físico ou criativo.
incapaz de dominar qualquer acto volitivo, físico ou criativo.
Possuído, de repente, movimentam-se rápido.
Sou tomado pelas imagens que perpassam por mim, os sons e o coração
recrudescem, cada vez mais fortes.
recrudescem, cada vez mais fortes.
Não sou eu, é o prenúncio da tua invasão.
Não me lembro de ter resistido. Não sei se quereria ter oposto alguma resistência
ou opor, um dia.
ou opor, um dia.
Fico quietinho num canto a assistir às descargas, os neurónios e as suas sinapses
revolteando, a observar a génese da vida enquanto me tomas para ti,
espectador incapaz de mudar o curso dos acontecimentos.
revolteando, a observar a génese da vida enquanto me tomas para ti,
espectador incapaz de mudar o curso dos acontecimentos.
Sou surpreendido e desconheço o que as minhas mãos escrevem, corro o risco
de ser dado como inimputável enquanto cruzo estas fronteiras entre nós.
de ser dado como inimputável enquanto cruzo estas fronteiras entre nós.
Considerem-me justificado.
Porque há um processo que levas a cabo sem eu querer e que me apraz.
Ter-te assim, sem pedires licença.
Seja o que for que escrevo és tu que escreves em mim.
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