segunda-feira, 14 de maio de 2018

A velha Roca

Velha Roca
guarda e abraça segredos
dor
E há fantasmas
Correm na escuridão como fogos fátuos
zunindo as suas mãos agrestes no meu corpo esquecido do cansaço
Está frio
Escuro
Longe vai já o alvoroço dos turistas diurnos
A Roca na sua solidão
Ao longe o suave hipnotizante marulhar das ondas
Nos lábios afloram gotas salgadas trazidas pelo vento recordando o teu sabor
Abraço eu a tua solidão
E nada mais


A dor

Achamos que compreendemos a dor que os outros por vezes sentem.
Podemos entender a dor, o sofrimento. Mas nunca saberemos a intensidade que essa dor pode ter.
A dor física e da alma não são comparáveis. Mas ambas podem provocar a vontade de desistir.
A discussão sobre a eutanásia não se pode nem deve restringir à dor e ao sofrimento físico.
Desistir pode ser uma palavra doce.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Boa sorte!

A vida não é uma música do Salvador Sobral. Amar pelos dois é bonito, poeticamente. Mas na vida, na real, já que dói e sangra, ninguém pode amar pelos dois. Há muitos anos escrevia que o amor não é uma auto-estrada de vias separadas ou uma estrada de sentido único. No amor, temos de caminhar no mesmo sentido, na mesma estrada, embora em carros separados.
Se não for assim não é amor. Porque o amor tem de ser correspondido. Pode ser desejo, vontade, sofrimento, mas não é amor.
Amar não é fácil.
A nossa vida é essa busca. Nem todos lá chegam.
E chega a altura em que talvez seja melhor desistir.
Se existe uma coisa maior é sem dúvida o amor.
E não podemos escolher. É uma questão de sorte. Pura e simples.
Boa sorte!

segunda-feira, 7 de maio de 2018

A sebenta

Quando era pequeno a vida era muito diferente. Lembro-me que o papel era valorizado e era caro. Um hábito que tinha era escrever e fazer os trabalhos de casa nas "sebentas" utilizando apenas a folha de rosto. Não dava jeito escrever no verso. Não sei porquê mas é uma tendência que perdura até hoje nas folhas brancas de papel A4 que saem da impressora.
Acontecia que, quando chegava ao fim da sebenta e pedia à minha mãe para comprar outra, ela conferia todas as folhas e, se existisse alguma vazia, obrigava-me a utilizar cada espaço disponível antes de proceder à compra de uma nova.
Naquela altura utilizavamos lápis para os trabalhos de casa na sebenta e a inevitável borracha para fazer correções.
As folhas da sebenta, amareladas, eram de um papel que facilmente esfarelava com a utilização da borracha. E havia as de lápis e as de caneta, estas últimas eram ainda mais duras e desfaziam completamente o papel.
Hoje, passados 50 anos, já não utilizo sebenta. Já praticamente não uso lápis. E até a caneta só serve, na prática, para uma qualquer anotação de urgência rabiscada num talão do multibanco ou de estacionamento. Fora isso, serve apenas para rubricar ou assinar documentos. É a evolução, a tecnologia, os pc's e os smartphones a mandar na nossa vida.
Mas a aversão às borrachas mantem-se.
Hoje, com quase 62 anos, sinto-me como uma folha de sebenta cheia, amarelada e frágil, na qual escreveste com caneta indelével, desfazendo-se lentamente sob o efeito da borracha com que me tentas apagar.
E não há outro caderno onde escrever.

domingo, 6 de maio de 2018

Aqui estive...

Que vos importa a minha tristeza
A minha inexorável solidão
Não passo de um átomo vencido
No abismo da vossa certeza
Não passo d' "a fucked up guy"
No infinito divino da desilusão
Mas no entanto, esperai!
Um dia abraçado à morte
Saberei por quem chorava
E será amante nesta viagem.
Ninguém se lembrará de quem terei sido
Do que amei, do que perdi, da minha sorte
Ninguém me acompanhará, perdido
Ninguém saberá o que tive
Ninguém  imaginará
Que finalmente serei livre
E aqui estive.

sábado, 5 de maio de 2018

O amor morre!?

É um princípio imutável. Tudo morre. Tudo decai. E o amor também.
E como todas as outras coisas existentes, o amor morre sem data. Um dia acaba.
Também há quem mate o amor. Normalmente quem mais fala dele. Acho que é uma espécie de escape, de fuga, na incapacidade de valorizar o amor.
E o pior que acontece é que o amor, na sua multiplicidade, não morre ao mesmo tempo.
Morre para uns, não morre para  outros.
E para aqueles para quem não morre torna-se uma morte em vida.
Abençoados os que nunca amaram. Apenas lhes desejo que nunca caiam nessa armadilha.
Por outro lado, viver sem conhecer o deslumbramento do amor, também não é viver.
Tudo morre. O amor também.
Porque raio insisto na sua eternidade?

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Destino

As minhas palavras, por pobres que sejam, desadornadas, não têm destinatário. 
Têm destino. O que é coisa substancialmente diferente.
Não se dirigem a ninguém, porque tu não fazes parte da multidão, 
fazes parte de mim. E fazendo parte de mim não há destinatário.
Resta, destarte, a função que cumprem, o seu destino.
Mas escrevê-las não cumpre apenas esse destino. Elas existem em mim, selvagens e irreverentes, umas vezes,
lamechas, dramáticas, incoerentes, outras vezes, e alegres,
muito de vez em quando.
Escrevê-las é só tornar sólido o que é etéreo. Solidificando são reais,
ganham força dentro de mim,
como se me olhasse ao espelho. Vejo-me com os olhos que escrevi.
O seu destino é mais simples, apenas perderem-se porque nasci perdido.
Se as achares, avisa, pode ser que, se quiseres,
ainda haja tempo para mudar o meu.