quarta-feira, 4 de junho de 2014

Passados III

Vivo de sombras

25 de Abril de 2011 

Entra.
Senta-te.
Pode ser naquela cadeira onde nunca te sentaste, perto de mim.
Ainda tenho tempo para te falar, tomar um café, fumar um cigarro e para te ouvir.
Os teus olhos, nunca os vi assim, tão transparentes e brilhantes.
Talvez porque das outras vezes que vieste não perdeste tempo comigo, vinhas por outras razões, vinhas por gente que amei.
Hoje, vens por mim, e eu vesti a minha melhor roupa. Deitei-me, imóvel, à tua espera, como se antes a Górgona Medusa tivesse passado por aqui, antes ainda de Perseu a matar, antes ainda de Pégaso nascer do seu sangue derramado.
Sabes, o dia acabou, sempre igual, e a noite chegou. Como sempre, sem nada para fazer.
Cansado de estar aqui a rabiscar em papéis, a sonhar. Por isso tenho tempo para conversar e te conhecer melhor.
Entra.
Senta-te.
Diz-me como vai ser o futuro, já que vens das terras sem tempo.
Antes de ir a qualquer lado contigo, quero saber.
Há música de onde vens? Sol? Chuva? Sentimos o vento na nossa cara?
Entra.
Senta-te.
Não me beijas? Tão séria e branca. Tão distante.
Vamos então, faz-se tarde, o dia nasce.
Não tenho malas a fazer.
Tudo o que tenho transporto nos meus braços e mãos.
E as sombras não têm peso.


1 comentário:

Renata Sampaio Silva Nogueira disse...

Boa noite Rui, você é um grande poeta.Parabéns. Renata