domingo, 21 de dezembro de 2014

Entre galáxias


Há muitos anos que perdi a conta às estrelas
Ou talvez tenha desistido de as tocar
Com a teimosia de quem na escuridão indica
Um caminho que não vai dar a lado nenhum
Uma estrada feita das serpentinas
que ficam penduradas meses sem fim nos braços
Das janelas mudas e cegas

Há muitos anos que perdi a conta às palavras
Ou talvez tenha desistido de as pronunciar
Ressoando nas paredes metálicas desta jaula
Onde permaneço exangue 
Esperando o despertar
Dos teus lábios nos meus
A liberdade que procuro

Sei que tudo existe
Estrelas-Palavras-Escuridão-Caminho-Lábios-Liberdade

Sobreviverei
Nesta luta interna entre galáxias?

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Enredo

Não tenhas medo da alquimia
Da mudança
Da geometria variável do prazer
Soçobras em teoremas inacabados
Num gemido ténue
Envergonhado 
Assumes a divindade do líquido
E lento desdobrar da minha língua
No avesso da tua
Como se nascidas assim
Inevitavelmente enredadas
Em cada centímetro quadrado do 
Corpo
Esquadrinhado e lentamente 
Retido
Na promessa única certa
Indivisível alucinada
Do que foi
Do que há-de ser



Por detrás do dia de ontem


Foste apenas sonhada
Em quadros de melancolia
Na sombra onde o vazio onde nem o vazio existe
Perdura 

Nunca exististe

O sonho não existe
Ao contrário dos fantasmas que
Fluem murmurantes do veludo em
Que transmutei a tua pele
Fugindo
Do marmóreo passado embaciado
Onde sepultei sufocados
Os dedos que cresceriam na noite
Miragem no oásis
Em que imaginei a tua fonte

Dessedentei-me 

E o teu sabor no
Mistério do silêncio
Tinha as cores que inventavam
O nascer do dia
Adormecido nas nuvens

Foste apenas sonhada
Repetidamente
Com a insistência de quem
Esqueceu como é sonhar





quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Passados IX



Entre2Mundos




O espaço que tenho dentro de mim
são devaneios
Sou assim composto de matéria nebulosa
onde cintilam memórias
da galáxia onde me movo
Uma parte deseja
outra sonha
Uma parte está contigo
outra viaja ao teu encontro
E nesse espaço sem fim
onde gelo e sufoco
descubro a porta mais secreta
onde rasgo os meus dedos
desenhando o tempo
És a lembrança sepultada
balançando sem sombra nem sol
oscilando entre 2 mundos
descendo um rio sem fim
E quando me perguntarem quem sou
direi que sou pouca coisa
Aquilo que o coração fez de mim


Novembro 2010

Passados VIII


Quisera



Quisera ter tocado a tua alma como toquei o teu corpo
Quisera prolongar indefinidamente este círculo imenso
De véus e sombras encerradas
Que nos devolvem e envolvem em pequenas vitórias.
Quisera que me tivesses entendido como eu te entendo
Como se o amor fosse coisa rara e extravagante
Quisera que o mundo fosse outro bem diferente
As palavras para mim simples mortais
E eu, simples como sou, e nada mais

fevereiro 2010

domingo, 23 de novembro de 2014

Perdido




A morte só dói a quem ainda não morreu a quem
nunca morreu e eu de vez em quando 
retorno à beleza do sonho e da noite num abrir
e fechar de olhos de delírio 
como se fosse um vírus sem nome 
permanente
esquecido de meio século que perdido levei
para te matar 
vestido com as máscaras fúnebres já gastas
que a manhã se cansou de me vender
ao acordar



domingo, 2 de novembro de 2014

Passados VII


O Beijo (The Kiss)

Andas por mim como se tudo fosse teu.
Andas não, flutuas, danças, ou sou eu que te vejo assim.
Então sorris.
Com aquele trejeito especial, arqueando os lábios.
Toda tu sorris.
Os teus olhos sorriem.
A tua pele sorri.
As minhas mãos sorriem no teu sorriso.
E nos teus lábios eu flutuo também.
Colada a mim.

fevereiro 3, 2012 - 22:54

Tu e Eu

A intensidade do dilúvio
Que escapa em delírio na tua voz
Sobrepõe-se à música que os meus dedos ouvem
Ao desmontar os segredos pendurados na tua pele.
És tu e eu.
E a mistura de sabores no arco-íris
Que escondes na ponta da tua língua.
Lanças-me o desafio que guardas no limite dos meus lábios
Esquecidos da simplicidade húmida da chuva.
E passeias, ondulas, na superfície onde deito pétalas de flores
Que não sabia arquejantes e coloridas
Quando as colheste para mim.
És tu e eu.
E assim ficamos lembrando o leito da manhã imóvel
No balanço entoado dos nossos corpos.

janeiro 3, 2012 - 19:06