segunda-feira, 7 de maio de 2018

A sebenta

Quando era pequeno a vida era muito diferente. Lembro-me que o papel era valorizado e era caro. Um hábito que tinha era escrever e fazer os trabalhos de casa nas "sebentas" utilizando apenas a folha de rosto. Não dava jeito escrever no verso. Não sei porquê mas é uma tendência que perdura até hoje nas folhas brancas de papel A4 que saem da impressora.
Acontecia que quando chegava ao fim da sebenta e pedia à minha mãe para comprar outra ela conferia todas as folhas e, se existisse alguma vazia, obrigava-me a utilizar cada espaço disponível antes de proceder à compra de uma nova.
Naquela altura utilizávamos lápis para os trabalhos de casa na sebenta e a inevitável borracha para fazer correções.
As folhas da sebenta, amareladas, eram de um papel que facilmente esfarelava com a utilização da borracha. E havia as de lápis e as de caneta, estas últimas eram ainda mais duras e desfaziam completamente o papel.
Hoje, passados 50 anos, já não utilizo sebenta. Já praticamente não uso lápis. E até a caneta só serve, na prática, para uma qualquer anotação de urgência rabiscada num talão do multibanco ou de estacionamento. Fora isso, serve apenas para rubricar ou assinar documentos. É a evolução, a tecnologia, os pc's e os smartphones a mandar na nossa vida.
Mas a aversão às borrachas mantém-se.
Hoje, com quase 62 anos, sinto-me como uma folha de sebenta cheia, amarelada e frágil, na qual escreveste com caneta indelével, desfazendo-se lentamente sob o efeito da borracha com que me tentas apagar.
E não há outro caderno onde escrever.

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