quarta-feira, 2 de maio de 2018

Destino

As minhas palavras, por pobres que sejam, desadornadas, não têm destinatário. 
Têm destino. O que é coisa substancialmente diferente.
Não se dirigem a ninguém, porque tu não fazes parte da multidão, 
fazes parte de mim. E fazendo parte de mim não há destinatário.
Resta, destarte, a função que cumprem, o seu destino.
Mas escrevê-las não cumpre apenas esse destino. Elas existem em mim, selvagens e irreverentes, umas vezes,
lamechas, dramáticas, incoerentes, outras vezes, e alegres,
muito de vez em quando.
Escrevê-las é só tornar sólido o que é etéreo. Solidificando são reais,
ganham força dentro de mim,
como se me olhasse ao espelho. Vejo-me com os olhos que escrevi.
O seu destino é mais simples, apenas perderem-se porque nasci perdido.
Se as achares, avisa, pode ser que, se quiseres,
ainda haja tempo para mudar o meu.

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