quarta-feira, 2 de maio de 2018

Destino

As minhas palavras, por pobres que sejam, desadornadas, não têm destinatário. 
Têm destino. O que é coisa substancialmente diferente.
Não se dirigem a ninguém, porque tu não fazes parte da multidão, 
fazes parte de mim. E fazendo parte de mim não há destinatário.
Resta, destarte, a função que cumprem, o seu destino.
Mas escrevê-las não cumpre apenas esse destino. Elas existem em mim, selvagens e irreverentes, umas vezes,
lamechas, dramáticas, incoerentes, outras vezes, e alegres,
muito de vez em quando.
Escrevê-las é só tornar sólido o que é etéreo. Solidificando são reais,
ganham força dentro de mim,
como se me olhasse ao espelho. Vejo-me com os olhos que escrevi.
O seu destino é mais simples, apenas perderem-se porque nasci perdido.
Se as achares, avisa, pode ser que, se quiseres,
ainda haja tempo para mudar o meu.

terça-feira, 1 de maio de 2018

À tua porta

Escrevo. E sou eu no papel.
Escrevo. À tua porta.
Há 50 anos que paro à porta errada. Há 50 anos que bato e abrem as portas que acabam por se encerrar sobre mim.
E os anos passaram. As portas abriram e fecharam. E a tua porta era a porta da minha casa, a última porta da rua. Única.
Já não tenho coragem de esperar nada. Já não tenho coragem de ser eu. De mim restam apenas as palavras no papel. À tua porta.
Podes queimar as folhas. Podes incinerar o que sou. Estão secas, velhas, sem a utilidade da tua pele.
Os milagres diluiram-se nas minhas mãos enquanto olhava para ti.
A magia do mundo apenas e só uma ilusão. Esquecerei o teu olhar enquanto os papéis definham trespassando  a noite.
Escrevo. À tua porta.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Nos teus lábios um momento

Os meus braços são nuvens das mais brancas que abraçam o Sol que te beija
Entregam-se na sedução do vento
Se fosse tempo seria o tempo errado
Se fosse chama seria o fogo na floresta
Se fosse água seria a sede no deserto
Porque sou assim errado e incerto
Se fosse amor seria apenas sombra
E na verdade sou apenas o que sobra
Nada resta
Só a certeza aguda e líquida do momento

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Tudo vai desaparecendo. As estrelas. As montanhas, as planícies, o dia, o sol. Já nem a noite existe.
Tudo se vai revertendo à sua infinitesimal forma original. Morrem os ventos e morro também nessa tempestade seca e calma.
Eu não existo sem vento e o vento não existe sem mim.
Na mistura do tempo viaja o meu ser triste mas sem medo.

sábado, 23 de setembro de 2017

Voltaremos

Desisto.
Sou um esquisso no horizonte uma sombra na aragem que deseja a eternidade.
Insisto na presença do cheiro das flores, da terra molhada, dos cachos selvagens de maçãs, da lonjura infinita das montanhas.
É aí, não sei onde, não sei quando, que olharemos um para o outro e voltaremos a encontrar-nos.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Anos-Luz...

Os sonhos abraçaram as estrelas. E consumiram-se no seu forno galáctico.
Já não são nada. Desprezados. Mais valeriam planetas estéreis e gélidos, inabitados que são os sentidos.
Nunca chegaste a entender.
Anos-luz de (in)diferença...