Quando era pequeno a vida era muito diferente. Lembro-me que o papel era valorizado e era caro. Um hábito que tinha era escrever e fazer os trabalhos de casa nas "sebentas" utilizando apenas a folha de rosto. Não dava jeito escrever no verso. Não sei porquê mas é uma tendência que perdura até hoje nas folhas brancas de papel A4 que saem da impressora.
Acontecia que quando chegava ao fim da sebenta e pedia à minha mãe para comprar outra ela conferia todas as folhas e, se existisse alguma vazia, obrigava-me a utilizar cada espaço disponível antes de proceder à compra de uma nova.
Naquela altura utilizávamos lápis para os trabalhos de casa na sebenta e a inevitável borracha para fazer correções.
As folhas da sebenta, amareladas, eram de um papel que facilmente esfarelava com a utilização da borracha. E havia as de lápis e as de caneta, estas últimas eram ainda mais duras e desfaziam completamente o papel.
Hoje, passados 50 anos, já não utilizo sebenta. Já praticamente não uso lápis. E até a caneta só serve, na prática, para uma qualquer anotação de urgência rabiscada num talão do multibanco ou de estacionamento. Fora isso, serve apenas para rubricar ou assinar documentos. É a evolução, a tecnologia, os pc's e os smartphones a mandar na nossa vida.
Mas a aversão às borrachas mantém-se.
Hoje, com quase 62 anos, sinto-me como uma folha de sebenta cheia, amarelada e frágil, na qual escreveste com caneta indelével, desfazendo-se lentamente sob o efeito da borracha com que me tentas apagar.
E não há outro caderno onde escrever.
segunda-feira, 7 de maio de 2018
domingo, 6 de maio de 2018
Aqui estive...
Que vos importa a minha tristeza
A minha inexorável solidão
Não passo de um átomo vencido
No abismo da vossa certeza
Não passo d' "a fucked up guy"
No infinito divino da desilusão
Mas no entanto, esperai!
Um dia abraçado à morte
Saberei por quem chorava
E será amante nesta viagem.
Ninguém se lembrará de quem terei sido
Do que amei, do que perdi, da minha sorte
Ninguém me acompanhará, perdido
Ninguém saberá o que tive
Ninguém imaginará
Que finalmente serei livre
E aqui estive.
A minha inexorável solidão
Não passo de um átomo vencido
No abismo da vossa certeza
Não passo d' "a fucked up guy"
No infinito divino da desilusão
Mas no entanto, esperai!
Um dia abraçado à morte
Saberei por quem chorava
E será amante nesta viagem.
Ninguém se lembrará de quem terei sido
Do que amei, do que perdi, da minha sorte
Ninguém me acompanhará, perdido
Ninguém saberá o que tive
Ninguém imaginará
Que finalmente serei livre
E aqui estive.
sábado, 5 de maio de 2018
O amor morre!?
É um princípio imutável. Tudo morre. Tudo decai. E o amor também.
E como todas as outras coisas existentes, o amor morre sem data. Um dia acaba.
Também há quem mate o amor. Normalmente quem mais fala dele. Acho que é uma espécie de escape, de fuga, na incapacidade de valorizar o amor.
E o pior que acontece é que o amor, na sua multiplicidade, não morre ao mesmo tempo.
Morre para uns, não morre para outros.
E para aqueles para quem não morre torna-se uma morte em vida.
Abençoados os que nunca amaram. Apenas lhes desejo que nunca caiam nessa armadilha.
Por outro lado, viver sem conhecer o deslumbramento do amor, também não é viver.
Tudo morre. O amor também.
Porque raio insisto na sua eternidade?
E como todas as outras coisas existentes, o amor morre sem data. Um dia acaba.
Também há quem mate o amor. Normalmente quem mais fala dele. Acho que é uma espécie de escape, de fuga, na incapacidade de valorizar o amor.
E o pior que acontece é que o amor, na sua multiplicidade, não morre ao mesmo tempo.
Morre para uns, não morre para outros.
E para aqueles para quem não morre torna-se uma morte em vida.
Abençoados os que nunca amaram. Apenas lhes desejo que nunca caiam nessa armadilha.
Por outro lado, viver sem conhecer o deslumbramento do amor, também não é viver.
Tudo morre. O amor também.
Porque raio insisto na sua eternidade?
quarta-feira, 2 de maio de 2018
Destino
As minhas palavras, por pobres que sejam, desadornadas, não têm destinatário.
Têm destino. O que é coisa substancialmente diferente.
Não se dirigem a ninguém, porque tu não fazes parte da multidão,
fazes parte de mim. E fazendo parte de mim não há destinatário.
Resta, destarte, a função que cumprem, o seu destino.
Mas escrevê-las não cumpre apenas esse destino. Elas existem em mim, selvagens e irreverentes, umas vezes,
lamechas, dramáticas, incoerentes, outras vezes, e alegres,
muito de vez em quando.
muito de vez em quando.
Escrevê-las é só tornar sólido o que é etéreo. Solidificando são reais,
ganham força dentro de mim,
ganham força dentro de mim,
como se me olhasse ao espelho. Vejo-me com os olhos que escrevi.
O seu destino é mais simples, apenas perderem-se porque nasci perdido.
Se as achares, avisa, pode ser que, se quiseres,
ainda haja tempo para mudar o meu.
ainda haja tempo para mudar o meu.
terça-feira, 1 de maio de 2018
À tua porta
Escrevo. E sou eu no papel.
Escrevo. À tua porta.
Há 50 anos que paro à porta errada. Há 50 anos que bato e abrem as portas que acabam por se encerrar sobre mim.
E os anos passaram. As portas abriram e fecharam. E a tua porta era a porta da minha casa, a última porta da rua. Única.
Já não tenho coragem de esperar nada. Já não tenho coragem de ser eu. De mim restam apenas as palavras no papel. À tua porta.
Podes queimar as folhas. Podes incinerar o que sou. Estão secas, velhas, sem a utilidade da tua pele.
Os milagres diluiram-se nas minhas mãos enquanto olhava para ti.
A magia do mundo apenas e só uma ilusão. Esquecerei o teu olhar enquanto os papéis definham trespassando a noite.
Escrevo. À tua porta.
Escrevo. À tua porta.
Há 50 anos que paro à porta errada. Há 50 anos que bato e abrem as portas que acabam por se encerrar sobre mim.
E os anos passaram. As portas abriram e fecharam. E a tua porta era a porta da minha casa, a última porta da rua. Única.
Já não tenho coragem de esperar nada. Já não tenho coragem de ser eu. De mim restam apenas as palavras no papel. À tua porta.
Podes queimar as folhas. Podes incinerar o que sou. Estão secas, velhas, sem a utilidade da tua pele.
Os milagres diluiram-se nas minhas mãos enquanto olhava para ti.
A magia do mundo apenas e só uma ilusão. Esquecerei o teu olhar enquanto os papéis definham trespassando a noite.
Escrevo. À tua porta.
quarta-feira, 18 de abril de 2018
Nos teus lábios um momento
Os meus braços são nuvens das mais brancas que abraçam o Sol que te beija
Entregam-se na sedução do vento
Se fosse tempo seria o tempo errado
Se fosse chama seria o fogo na floresta
Se fosse água seria a sede no deserto
Porque sou assim errado e incerto
Se fosse amor seria apenas sombra
E na verdade sou apenas o que sobra
Nada resta
Só a certeza aguda e líquida do momento
terça-feira, 3 de outubro de 2017
Tudo vai desaparecendo. As estrelas. As montanhas, as planícies, o dia, o sol. Já nem a noite existe.
Tudo se vai revertendo à sua infinitesimal forma original. Morrem os ventos e morro também nessa tempestade seca e calma.
Eu não existo sem vento e o vento não existe sem mim.
Na mistura do tempo viaja o meu ser triste mas sem medo.
Tudo se vai revertendo à sua infinitesimal forma original. Morrem os ventos e morro também nessa tempestade seca e calma.
Eu não existo sem vento e o vento não existe sem mim.
Na mistura do tempo viaja o meu ser triste mas sem medo.
Subscrever:
Mensagens (Atom)